Joaquina de Assis Brasil ( São Vicente do Sul (atual Cacequi), RS, 17 de Janeiro de 1902— Pedras Altas, 16 de Novembro de 1988), foi uma agropecuarista brasileira, terceira filha do diplomata Joaquim Francisco de Assis Brasil. Durante cinco décadas, administrou a Granja de Pedras Altas e o seu icônico castelo, destacando-se na continuidade da criação de gados das linhagens Jersey e Devon no Brasil. Assim como foi a principal guardiã do legado histórico e patrimonial de seu pai.
Biografia Primeiros anos e formação Popularmente conhecida como Quinquim (apelido dado pelo historiador e amigo da família Capistrano de Abreu) Joaquina nasceu na fazenda de seus avós, a chamada Estância de São Gonçalo, pertencente ao município de São Gabriel na época, hoje localizada em Cacequi; berço de surgimento da numerosa família Assis Brasil. Entre 1902 e 1904, viveu em Bagé, após o retorno da família dos Estados Unidos, onde seu pai servira como embaixador. Sua educação ocorreu de forma doméstica na Granja de Pedras Altas, por meio de preceptoras europeias que lhe conferiram fluência em cinco idiomas: português, francês, inglês, alemão e espanhol. Além das disciplinas acadêmicas, sua formação incluía artes e a prática diária das lidas campeiras, como o manejo do gado a cavalo e o trabalho direto no campo. Da mesma forma como todos os seus irmãos.
Vida no castelo de Pedras Altas Em 1905, Assis Brasil se muda com a sua família para Pedras Altas. Joaquina estava com 3 anos de idade. Já em 1913, ano de conclusão das obras do Castelo de Pedras Altas, Assis Brasil com toda a sua família, mudam-se para a fortaleza de pedra, onde Joaquina residiria pela maior parte de sua vida. Antes disso, habitaram o cottage ao lado do castelo- considerada a primeira casa pré-fabricada do Rio Grande do Sul, feita com madeira vinda da Noruega. Durante a década de 1920, acompanhou a família em períodos de exílio político no Rio de Janeiro e no Uruguai. Solteira, assim como suas duas irmãs mais velhas Cecília e Lydia, aprendera desde jovem ao trabalho no campo.
Atuação Profissional e Legado Agropecuário Após o falecimento precoce de sua irmã Cecília, atingida por um raio, aos 35 anos de idade e quatro anos depois, em 1938, de Joaquim Francisco, Joaquina assumiu a administração técnica e econômica da Granja de Pedras Altas, dando continuidade ao trabalho desenvolvido por seu pai. Enquanto sua irmã Lydia (apelidada de menina Lydia), dedicava-se ao acervo botânico, Joaquina focou na agropecuária e na manutenção da estrutura física do castelo. A partir de meados da década de 30, quando seus irmãos constituíram matrimônios e se estabeleceram em outras cidades, Joaquina e sua irmã Lydia habitaram o castelo por cinco décadas- um período juntamente com a sua mãe e a sua irmã mais velha Maria (1889-1953)- do primeiro casamento de Joaquim Francisco. Suas irmãs Joana, Dolores e Lina casaram e estabeleceram suas vidas nos municípios de Dom Pedrito e São Gabriel, respectivamente. Já seus dois irmãos homens Joaquim e Francisco, ao casarem, assumiram a administração das fazendas que Assis Brasil herdara de seus pais, localizadas na região rural chamada de Ibirapuitã, no município de Alegrete, onde constituíram suas respectivas famílias. A tradição dos gados Jersey e Devon Dona Joaquina foi a responsável por dar continuidade à criação do "gado dourado" (Jersey) em Pedras Altas, tradição iniciada por Joaquim Francisco em 1895. Assim como do plantel da raça Devon, e também da criação de ovelhas da raça karakul. Segundo registros históricos, os primeiros exemplares da raça, foram importados da Ilha de Jersey, por Assis Brasil, durante sua estada em Lisboa. O episódio ficou marcado pelo interesse da corte portuguesa nos animais, incluindo o elogio do Marquês da Praia e Monforte à vaca “Fennel”.
Já o gado Devon, Dona Joaquina deu continuidade a criação, introduzida e iniciada em 1906 por seu pai, e tendo diversos anos sob a sua gestão. A Granja de Pedras Altas manteve a pureza de linhagens históricas. Ela foi expositora assídua na Expointer, em Esteio, onde seus animais — incluindo as raças Jersey, Devon e ovinos Karakul— frequentemente recebiam premiações. Assim como participou em feiras agropecuárias de diversos municípios no interior do estado, além de feiras anuais no Uruguai. Além de manter a genética pecuária, Dona Quinquim também deu continuidade, administrando a produção e comercialização da tradicional manteiga artesanal da granja de Pedras Altas, distribuída em Pelotas e Porto Alegre. Preservação patrimonial Como guardiã do castelo, Dona Joaquina zelou pela biblioteca e pelas peças históricas da família. Era conhecida por receber pessoalmente pesquisadores e visitantes, conduzindo visitas guiadas e compartilhando a historiografia de Assis Brasil e do papel de Pedras Altas na política gaúcha e brasileira. Manteve as tradições familiares, como o "chá das cinco" a todos que chegassem ao castelo e cuidou de sua mãe, Lydia, até o falecimento desta em 1973. Deu continuidade ao funcionamento da propriedade com rigor histórico até o fim de sua vida.
Morte e Homenagens Dona Quinquim faleceu no Castelo de Pedras Altas em 16 de novembro de 1988, aos 86 anos, e foi sepultada no cemitério da propriedade, onde estão seus pais e alguns de seus irmãos. O castelo serviu de moradia familiar até o ano do falecimento de sua irmã Lydia em 1993. Após esse período, os descendentes da família Assis Brasil se revezaram na administração da granja e do castelo até a sua venda no ano de 2022 à família Segat. Em sua memória, atualmente há uma praça no município de Bagé que leva o seu nome. Assim como na cidade de Pedras Altas a praça “Joaquina de Assis Brasil” é também nomeada em sua homenagem. Em 1991, o município de São Gabriel instituiu o “Troféu Quinquim”, distinção conferida em sua memória, anualmente a mulheres que se destacam no setor rural do Rio Grande do Sul, celebrando o seu pioneirismo na gestão agropecuária feminina.
Referências