Urusei Yatsura 2 Byūtifuru Dorīmā (うる星やつら2 ビューティフル・ドリーマー, Urusei Yatsura 2 Byūtifuru Dorīmā) é um filme de animação japonesa de fantasia e comédia romântica com elementos de ficção científica de 1984, produzido pela Kitty Films e distribuído pela Toho. Sendo a segunda produção cinematográfica da série Urusei Yatsura, baseado no mangá homônimo de Rumiko Takahashi. O enredo conta a história de um grupo de estudantes japoneses do ensino médio, incluindo Lum e Ataru, se prepara para o festival cultural anual da escola e começa a questionar a realidade ao seu redor após uma série de eventos desconcertantes. O filme experimentou com conceitos como loop temporal, sonhos e realidade simulada, diferenciando-se do filme anterior, Onri Yu, que foi mais fiel ao mangá e ao anime televisivo. Urusei Yatsura 2: Beautiful Dreamer foi escrito e dirigido por Mamoru Oshii, com Yuji Moriyama como diretor de animação. Embora o filme tenha recebido críticas mistas em seu lançamento inicial, posteriormente recebeu aclamação da crítica como um dos primeiros exemplos do estilo cinematográfico pelo qual Oshii se tornaria conhecido. E recentemente entrou pra várias listas melhores filmes de animação japoneses de todos os tempos, inclusive pela revista de cinema Kinema Junpo.

Enredo Ataru e Lum estão entre os estudantes da Escola Secundária de Tomobiki envolvidos nos preparativos para o próximo festival cultural estudantil. Alguns deles passam a desconfiar que seus dias estão se repetindo. Para testar a teoria, decidem ir para casa em vez de passar a noite na escola como vinham fazendo. No entanto, todos acabam retornando à escola, incapazes de deixar os limites da cidade. Eles embarcam em um Harrier e voam em direção ao espaço, descobrindo que toda a cidade está nas costas de uma tartaruga gigante flutuando no vácuo. Os estudantes passam a investigar a escola, acreditando que ela seja a origem dos acontecimentos estranhos. Eventos impossíveis ocorrem, como Ataru sendo perseguido por seus próprios reflexos em um espelho infinito. A realidade logo se transforma: antes tudo parecia normal, mas agora a cidade está abandonada, com edifícios em ruínas e atmosfera de pós-apocalipse. Poucos humanos restam, a eletricidade é escassa e muitas construções estão deterioradas. Ainda assim, a casa dos pais de Ataru funciona normalmente, com acesso a gás e energia, e a mercearia local ainda fornece alimentos. O grupo consegue enganar um demônio dos sonhos e fazê-lo se revelar. Ele explica seu plano de criar um sonho eterno, livre de outro espírito que devora seus sonhos quando estes se tornam pesadelos. Ataru convoca o “devorador de pesadelos”, já que seu sonho de harém não inclui sua amada Lum. Quando o devorador surge, a realidade onírica entra em colapso enquanto ele consome o sonho. Ataru continua acordando em sucessivos pesadelos. Uma representação infantil de Lum o orienta a dizer o nome da pessoa que deseja ver para despertar. Após mencionar várias outras mulheres, o protagonista finalmente pronuncia o nome de Lum e desperta na escola. Cercado pelos colegas, ele e sua "esposa" conversam brevemente sobre o sonho que tiveram. Porém ela pede um beijo, mas o personagem principal se envergonha. Sem que os demais saibam, o demônio dos sonhos e o devorador de pesadelos são mostrados trabalhando nos preparativos do festival escolar, enquanto o demônio comenta que continuará “acompanhando” Lum e Ataru.

Elenco

Produção Assim como seu antecessor, Onri Yu, Beautiful Dreamer se inspira bastante no conto de fadas japonês de Urashima Tarō. Enquanto o filme anterior foi escrito por Tomoko Konparu, este teve roteiro de Oshii sem consultar Rumiko Takahashi. O roteirista/diretor Mamoru Oshii, insatisfeito com o desenvolvimento do primeiro longa-metragem, rejeitou a ideia de atender às expectativas do público e decidiu fazê-lo à sua maneira. Isso quase fez com que a mangaká rejeitasse o roteiro por se desviar muito da história original mas recebeu o apoio de Hayao Miyazaki. Em uma entrevista à Kinema Junpo em 2008, Oshii disse que sentiu alegria durante toda a produção porque, naquele momento, finalmente "entendeu como fazer um filme". No comentário em DVD japonês de Beautiful Dreamer, lançado em 2002, Oshii deu mais detalhes sobre seu envolvimento com a história. De acordo com o comentário, Oshii afirmou que alguns detalhes da animação foram inspirados em M.C. Escher e que ele queria criar uma história "do ponto de vista de um homem", em oposição ao trabalho de Takahashi, "feito pelas mãos de mulheres". O animador Yuji Moriyama trabalhou como diretor geral de animação, bem como na série de televisão. Outras referências e paródias incluem Gojira (1954) e Frankenstein (1931).

Trilha sonora 「愛はブーメラン」 ("Ai wa Būmeran") Canção-tema interpretada por Yūko Matsutani. A letra foi escrita por Tokuko Miura, com composição de Ryo Matsuda e arranjo de Nobuyuki Shimizu. O produtor musical Hidetoshi Kimura comentou sobre a performance de Matsutani em seu livro, afirmando que "apesar de cantar de forma alegre sobre um ritmo de pop rock, sua interpretação causa uma impressão bastante agradável. É possível perceber nela várias possibilidades como cantora".

「ラメ色ドリーム」 ("Rame-iro Dream") Canção inserida interpretada por Izumi Kobayashi, com letra de Mei Miyahara. A composição e o arranjo também são de Kobayashi.

「時代おくれの酒場」 ("Jidai Okure no Sakaba") Canção inserida interpretada por Tokiko Kato, com letra e composição da própria artista, e arranjos de Nobutaka Tsugei e Tokihiko Morishita. A música também foi utilizada como canção inserida na série de anime para televisão de 1981.

「ふたたびの」 (*Futatabi no*) Canção inserida interpretada por Eijiro Tai, com letra de Etsuko Kisugi, composição do próprio Tai e arranjo de Takaji Ryuzaki.

Lançamento Beautiful Dreamer foi lançado nos cinemas do Japão em 11 de fevereiro de 1984, durante a segunda temporada do anime, sendo distribuído pela Toho. A Central Park Media lançou o filme em VHS na América do Norte em 1o de novembro de 1992 e em DVD em 8 de junho de 2004. O DVD incluía um comentário em áudio completo do diretor Mamoru Oshii, além de uma galeria de arte. Beautiful Dreamer foi também o único filme da franquia Urusei Yatsura lançado nos Estados Unidos pela US Manga Corps, e não pela AnimEigo, embora esta tenha sido creditada pela tradução e legendagem da versão em VHS, bem como pelo design da embalagem do DVD, feito para combinar com os demais filmes da série. O filme foi exibido no bloco de animações do Sci-Fi Channel nos Estados Unidos no final da década de 1990. Em 2016, a Discotek Media anunciou ter adquirido a licença do filme para a América do Norte, com lançamento em DVD e Blu-ray. O lançamento ocorreu em 27 de fevereiro de 2018. Durante um painel na Otakon 2022, a Discotek revelou que licenciou Beautiful Dreamer como um “teste de mercado” para avaliar o interesse por Urusei Yatsura. Posteriormente, a empresa lançou o restante dos filmes em Blu-ray, bem como toda a série de anime. Em 2025, o Blu-ray encontra-se fora de catálogo. No Japão, o DVD do filme foi lançado em 2002, apresentando tanto a trilha sonora original em mono quanto uma nova mixagem em 5.1 canais, ambas em japonês, além de comentários em áudio de Mamoru Oshii, do diretor associado Junji Nishimura e de Shigeru Chiba. Um Blu-ray japonês chegou a ser planejado para março de 2009, mas foi cancelado. O lançamento em Blu-ray ocorreu em 21 de janeiro de 2015, alcançando o terceiro lugar nas paradas semanais da Oricon com 7.860 cópias vendidas. Essa edição em Blu-ray não inclui os comentários em áudio presentes no DVD original.

Recepção Após seu lançamento inicial, o filme recebeu reações mistas, geralmente vindas dos fãs mais tradicionais de Urusei Yatsura. As críticas foram especialmente direcionadas a Oshii, com vários fãs enviando-lhe cartas contendo lâminas de barbear. Em Stray Dog of Anime: The Films of Mamoru Oshii, Brian Ruh observou que o enredo "irritou vários espectadores", pois enfatizou "mais questões filosóficas profundas" em vez do tom mais cômico. Numa entrevista com Richard Eisenbeis em 2017, Oshii relembrou as críticas que recebeu sobre ter dado a menor ênfase a vários personagens no longa-metragem, especialmente Lum. Posteriormente, Beautiful Dreamer começou a receber críticas positivas e creditado por seu tom autoral. Brian Rush observou que a animação continha um "estilo visual inconfundível, usando planos tranquilos e contemplativos, frequentemente combinados com longos monólogos ou diálogos" e que apresentava imagens que seriam vistas em produções posteriores de Oshii, como água e tanques. Vincent Ostria afirmou em Les Inrockuptibles que: "[é] uma série de sonhos no abismo, prenunciando... os jogos virtuais de Avaron e Ghost in the Shell". Todd French da Cinefantastique, o chamou de "imperdível", comparando a obra aos "filmes existencialistas de deslocamento espaço-temporal" de Alain Resnais e ao romance de Agatha Christie, And Then There Were None". Enquanto John Hartl para o The Seattle Times, comparou o uso de um loop temporal ao longa-metragem Groundhog Day (1993). Aaron Gerow, do The Daily Yomiuri, referiu-se a Beautiful Dreamer como uma crítica "tanto ao mundo repetitivo do anime quanto aos fãs otaku que se isolam nesse universo". Jeff Yang, do SFGate, fez uma comparação com o projeto seguinte de Oshii, Angel's Egg, afirmando que ambos questionam "se o que pensamos ser 'real' é real e se realmente estamos 'pensando' — ou se somos apenas produtos da fantasia de outra pessoa". No mania.com, Chris Beveridge chamou o filme de "um grande clássico dos animes". Na Otaku USA, Daryl Surat disse que o longa-metragem "é geralmente aclamado como um dos melhores filmes de anime de todos os tempos". O THEM Anime Reviews deu 4 estrelas e o chamou de "uma obra surrealista habilidosa de Oshii com muito mistério e a dose certa de excentricidade de Urusei Yatsura para se manter familiar". Olivier Bitoun do TVClassik deu 3 estrelas. Fred Patten da Animation World Network afirmou que a animação era excelente, mas também que não era um bom exemplo representativo do mangá. No "The Anime Movie Guide", a autora Helen McCarthy deu ao filme três estrelas de cinco, escrevendo: "Oshii usa a história [de Urashima Tarō] como base para uma comédia que aborda questões sérias como tempo, espaço, realidade e percepção".

Reação de Rumiko Takahashi Em uma conversa com Kazumasa Hirai sobre este filme, a autora original do mangá, Rumiko Takahashi, disse: "Beautiful Dreamer é o Urusei Yatsura de Oshii". Posteriormente surgiram outras opiniões dela sobre ele: "Oshii é um gênio" e "Beautiful Dreamer é a obra-prima de Oshii, e eu gostei muito como espectadora". Apesar disso houve boatos de que seu relacionamento com Oshii havia se deteriorado como resultado do incidente acima, mas em uma entrevista de 2013 para a Comic Natalie, a autora afirma: "Aceitei como uma obra do diretor Mamoru Oshii e gostei de assistir". E então negou os rumores em uma conversa com Kenjiro Hata e Kenji Kumanomata na 44a edição da Weekly Shonen Sunday em 2020, rindo deles e dizendo: "Sempre houve rumores de uma desavença entre nós (risos)" e por fim acrescentando: "Estou negando, mas penso que o público acha isso mais interessante, então eles nunca corrigem". Além disso, no podcast da Nippon Broadcasting System "Ranjatai's Legendary Lonely Group", transmitido em 21 de maio de 2024, Koji Ito, da dupla de comédia "Ranjatai", perguntou sobre o incidente no jantar e perguntou a ele: "É verdade que você ficou bravo?", ao qual Rumiko respondeu: "De jeito nenhum". Ao mesmo tempo, ele ainda confirma sua verdadeira opinião sobre o filme: "Essa é a obra-prima de Mamoru Oshii. Não é minha, no entanto".

Prêmios A revista Kinema Junpo classificou Beautiful Dreamer como o 17o melhor filme japonês de 1984. A mesma publicação posteriormente o classificou como um dos melhores filmes de animação japoneses.[carece de fontes]? O longa também foi o vice-campeão na categoria "Best 10" do 6.o Festival de Cinema de Yokohama. Na edição de 1984 do Anime Grand Prix, a animação ficou em terceiro lugar. A revista Animage também o posicionou na 38a colocação em sua lista dos 100 melhores animes de todos os tempos. Enquanto a Wizard’s Anime Magazine classificou o filme na 9a posição em sua lista dos 50 melhores animes lançados na América do Norte. Em fevereiro de 2004, a revista Cinefantastique incluiu Beautiful Dreamer entre as “10 Animações Essenciais” do Japão, ao lado de Ghost in the Shell, também dirigido por Mamoru Oshii. Em 2009, Beautiful Dreamer foi eleito o 7o “Maior Filme de Animação Japonês de Todos os Tempos” pela revista Kinema Junpo. No ano de 2017, a revista Paste publicou o filme na 28a posição de sua lista dos “100 Melhores Filmes de Anime de Todos os Tempos”.

Legado Vincent Ostria afirmou na revista Les Inrockuptibles que o filme é "uma série de sonhos em abismo, prenunciando... os jogos virtuais de Avalon e Ghost in the Shell". John Hartl, do The Seattle Times, comparou o uso do loop temporal no enredo do filme com Groundhog Day. O pesquisador Benedict Marko comparou com Dark City (1998), que, segundo ele, teria sido influenciado por Urusei Yatsura 2. Josh Zyber, do Hi-Def Digest, declarou que o longa "teve influência evidente tanto em Groundhog Day quanto em Dark City". Os escritores Brian Camp e Julie Davis também compararam o filme a Groundhog Day. Steve Heisler, do The A.V. Club, comparou Beautiful Dreamer ao filme A Origem (2011). A revista Manga UK traça as origens do uso de loop temporal em anime e mangá e credita a popularização do conceito após Beautiful Dreamer. O recurso narrativo do tempo em repetição foi posteriormente utilizado em diversas obras japonesas, como o episódio natalino da série Kimagure Orange Road (1987) (“Kyosuke Timetrips! The Third Christmas”), o arco “Endless Eight” das light novels Suzumiya Haruhi no Yūutsu (2004) e sua adaptação em anime (2009), além da light novel All You Need Is Kill (2004), que inspirou o filme hollywoodiano No Limite do Amanhã (2014).

Referências

Bibliografia