Mitate-e (見立絵) é um subgênero do ukiyo-e, gênero de xilogravura da arte japonesa, que emprega alusões, trocadilhos e incongruências para parodiar arte ou eventos clássicos. O termo deriva de duas raízes: mitateru (見立る, "comparar uma coisa com outra") e e (絵, "imagem"). A técnica mitate surgiu primeiro na poesia e tornou-se proeminente durante o período Heian (794–1185). Os poetas de haiku reviveram a técnica durante o período Edo (1603–1868), de onde ela se espalhou para as outras artes da época. Tais obras tipicamente empregam alusões, trocadilhos e incongruências, e frequentemente remetem a obras de arte clássicas. No contexto do ukiyo-e, mitate-e é frequentemente traduzido para o inglês como "parody picture" (imagem de paródia). Esse uso do termo surgiu muito mais tarde; o próprio termo foi usado de maneiras diferentes durante o período Edo. As obras hoje chamadas de mitate-e usavam rótulos diferentes na época, como fūryū (風流, "elegante" ou "na moda") que era recorrente no século XVIII em obras de Okumura Masanobu (1686–1764) e Suzuki Harunobu (1725–1770).
História e origens O conceito de mitate originou-se na poesia japonesa antes de chegar às artes visuais. A palavra combina miru (見る, "olhar") e tateru (立てる, "estabelecer") e tornou-se conhecida no período Heian (794–1185) como um ato de comparação no qual uma coisa era "vista como outra". Na literatura antiga, como nos gêneros de poesia waka e renga, os poetas usavam mitate para sobrepor significados por meio de trocadilhos e homófonos. Essa técnica poética foi posteriormente expandida na poesia haikai durante o período Edo (1603-1868), onde desenvolveu um tom mais humorístico e subversivo.
A adaptação dos versos para as artes visuais refletiu as crescentes tendências de paródia e alusão na arte popular da época. À medida que a impressão comercial se expandia, os artistas começaram a usar o recurso poético nas imagens para comparar pessoas modernas, como cortesãs, atores e habitantes das cidades, a figuras clássicas da literatura e das lendas. O termo mitate-e não se tornou padronizado até depois do período Edo, provavelmente durante o século XVIII, e obras semelhantes eram frequentemente rotuladas como fūryū (風流. "elegante" ou "atualizado".
Temas e caracterizações O mitate-e é definido pelo uso de analogias, substituições e referências em camadas para criar associações visuais e culturais. Essas associações veladas eram destinadas ao público urbano do período Edo, familiarizado tanto com a literatura clássica quanto com a cultura popular contemporânea. Isso permitia aos espectadores reconhecer e interpretar alusões em camadas. Mitate (見立て, "comparar" ou "ver como") envolve apresentar um assunto nos termos de outro, produzindo um contraste complexo entre imagem e significado. Isso existe na realidade como um processo de "ver como", onde o espectador pode ter múltiplas interpretações simultaneamente, muitas vezes evocando humor ou ironia. As composições frequentemente utilizam temas como cortesãs, atores de kabuki ou habitantes da cidade reinterpretados como heróis e poetas clássicos.
Artistas notáveis
Diversos gravuristas proeminentes do período Edo empregaram o uso do mitate em seus trabalhos. Masanobu é citado como um dos primeiros artistas a incorporar o uso da paródia em gravuras em madeira, criando um precedente para as composições de artistas posteriores. Harunobu ajudou a popularizar o mitate-e nas gravuras Edo, reinterpretando a literatura clássica e imagens sazonais em contextos contemporâneos por meio de uma linguagem visual colorida e envolvente. O uso do mitate-e por Harunobu estava frequentemente ligado a temas eróticos, satíricos e políticos; às vezes, levando à censura das gravuras sob as leis de publicação Edo. Artistas da escola Torii e da escola Utagawa, incluindo Torii Kiyonaga (1752-1815), Kunisada (1786-1865) e Utagawa Kuniyoshi (1798-1861), estenderam o mitate-e para retratos de atores, usando alegoria para combinar atores de kabuki com poetas e motivos clássicos. Os artistas usaram essas combinações para contornar as regulamentações de censura, apresentando temas políticos e controversos de uma forma que ocultava a referência direta. Utamaro também utilizou mitate-e ao criar retratos de mulheres e cenas históricas. Uma representação do samurai japonês Toyotomi Hideyoshi e suas concubinas na série Taikō Gosai Rakutō Yūkan no Zu levou à prisão de Utamaro em 1804, durante o xogunato Tokugawa.
Notas e referências
Notas
Referências