O Festival Cultural dos Povos Indígenas do Alto Rio Negro, amplamente conhecido como Festribal, é uma festividade antropológica e cultural realizada anualmente no município de São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do estado do Amazonas. O evento ocorre ao final de agosto até o início de setembro e é considerado a maior vitrine da diversidade étnica do Alto Rio Negro, reunindo representações das 23 etnias indígenas das famílias linguísticas Tukano, Aruak e Maku.
Contexto e Significado Cultural Ao contrário de outros festivais folclóricos da Amazônia, o Festribal fundamenta-se na plurietnicidade e na reafirmação política. Conforme a tese de doutorado de Elma Souza (2019), o festival funciona como um espaço de "mediação interétnica", onde grupos que historicamente possuem diferentes hierarquias sociais se unem sob uma identidade comum para celebrar a resistência indígena frente à sociedade não-indígena. O nome do festival e a sua estrutura evocam o Dabucuri, um ritual tradicional de oferta de bens e trocas cerimoniais que é a base da sociabilidade dos povos da região.
História O Festribal foi idealizado em 1996 com o objetivo de valorizar, difundir e homenagear os hábitos culturais das 23 etnias indígenas do Alto Rio Negro. O evento foi oficialmente instituído no calendário do município através do decreto-lei no 024, de 13 de maio de 1996, durante a gestão do prefeito Juscelino Otero Gonçalves. Um dos marcos fundamentais do festival foi a criação de um ritmo musical próprio, que não imitasse outros festivais amazônicos e preservasse a identidade local. Esse ritmo nasceu de uma reunião histórica no Sítio Parauari, de propriedade do então prefeito Juscelino Gonçalves. Na ocasião, o prefeito e o músico Nilton Gonçalves (o Pitoco) desenvolveram a batida baseada no Dabucuri (ritual tradicional de oferta). O grupo musical Ycuema (formado por Sérgio Dantas, Enaldo Gama, Nilton Gonçalves, Joelmir Gonçalves e Daniel Rodrigues) foi o responsável por dar a sonoridade característica ao evento. A organização do 1o Festribal contou com um corpo técnico e artístico de pioneiros, entre eles: Coordenação Geral: Salomão Moreira Aquino. Comissões e Apoio: Marco Antônio Souza de Oliveira, Francisco de Assis de Araújo Costa, Rodolfo Otero Gonçalves, Luis dos Santos França, Maria Olga dos Santos Dantas, Maria das Graças Otero Gonçalves, Valdemir de Andrade França, José Carlos Colares e Maria da Conceição das Graças Albuquerque. Identidade Visual: Os artistas plásticos e irmãos Eduardo, Marcos, Nertan e Heber Dutra de Araújo, responsáveis por traduzir a estética indígena em cenários e artes. Como marco da fundação do festival, foi erguido em frente ao ginásio um monumento em pedra granito representando a cabeça de um homem indígena, obra do artista J. Ribeiro. Embora tenha começado em setembro (coincidindo com o dia do padroeiro São Gabriel Arcanjo), o festival chegou a ser realizado em abril (mês dos povos indígenas). Atualmente, o evento ocorre na primeira semana de setembro, aproveitando as celebrações do aniversário da cidade (3 de setembro) e a Semana da Pátria.
As Agremiações O Festribal é centrado na disputa entre agremiações culturais que apresentam enredos baseados em lendas e ritos indígenas. Cada apresentação dura cerca de uma hora e meia e é avaliada por jurados. Ao longo de sua história, o festival contou com quatro agremiações principais. Um marco na história do festival ocorreu em 2005. Devido aos altos custos de logística e ao longo tempo de duração para quatro agremiações, a comissão organizadora estabeleceu que apenas as duas primeiras colocadas continuariam na disputa oficial. Naquele ano, Baré e Tukano garantiram as vagas, resultando na saída da Waupés e da antiga Rio Negro.
Agremiações Pioneiras e Históricas Agremiação Waupés (Azul e Branco): Fundada em 1995, antes mesmo da primeira edição do festival, com o objetivo de resgatar a cultura das tribos do Alto Rio Negro. Seus fundadores foram Valdemir de Andrade França, Vicente Linhares, Estanislau Pereira de Jesus, Lúcia Alberta de Andrade, Joel Brazão e Lucineide Nascimento. Foi a primeira campeã do Festribal (1996) e conquistou os títulos de 1999, 2000 e 2003. Sua primeira Kunhã-Puranga, Alvimar Cadema, tornou-se um ícone cultural da época, representando o festival na Venezuela e em outros municípios. A Waupés despediu-se do festival em 2005. Agremiação Rio Negro (Preto e Vermelho): Surgiu em 3 de março de 1997 para preencher a lacuna deixada pela ausência temporária da Tukano. Sob o comando de Lúcia Alberta, Arminda Denis e Vicente Linhares, estreou em 1999. Foi campeã em 2001, 2002 e 2004. Em 2005, devido a uma mudança nas regras que limitou o número de competidores, a agremiação deixou de participar, entrando em um hiato de 13 anos até sua reformulação.
Agremiações Contemporâneas Associação Cultural Tribo Tukano (Cores Preto e Amarelo): Criada em 1995 especificamente para o festival, homenageia o passáro natural da região amazônica e também uma das principais etnias da região. Seus idealizadores foram Gilberto Santana Delgado (primeiro presidente), Salomão Moreira de Aquino, Jóia de Albuquerque, Valdir Miranda, Maria da Conceição de Almeida, José Célio de Carvalho Melo, Marçal Tupinambá de Albuquerque e Odilce Fátima. Após participar da primeira edição, ausentou-se por quatro anos, retornando em 2001 e conquistando seu primeiro título em 2006. É reconhecida pelo rigor na apresentação da cosmologia Tukano. Associação Cultural Tribo Baré (Cores Vermelho e Amarelo): Fundada em 18 de outubro de 2002 no bairro Boa Esperança por Terezinha Eufelia Dutra de Araújo, Josenaldo Menezes, Leopoldo José Teixeira, Maria Aparecida Vieira de Lima, Edilson Caldas, Ivanete da Silva Pimenta e J. Francelino. Homenageia a etnia Baré e os povos de língua geral (Nheengatu). Sua criação marcou uma nova fase no festival, trazendo temas que fundem a resistência histórica ao período colonial com a exaltação da vida ribeirinha. É conhecida por suas alegorias grandiosas e pela forte participação da juventude urbana de São Gabriel da Cachoeira. É uma das agremiações mais populares da atualidade. Associação Cultural Filhos do Rio Negro (Cores Preto e Verde): é a mais jovem das agremiações em atividade. Sua trajetória iniciou-se em 2014, sob o nome de Arte e Música Filhos do Rio Negro, idealizada por um grupo de jovens amigos indígenas. Seus fundadores são: Alan Barbosa, Jailson Olegário, Edinho Vargas, Daniele Otero, Lêda Silva, Alair Navarro, Wellington Ferraz, Jenivaldo Júnior e Alison Silva. Oficializada em 2018, a associação adota o lema "Busque nos mais velhos os valores do passado". Suas cores, o preto e o verde, simbolizam a união das águas escuras do Rio Negro com a imensidão da Floresta Amazônica. A agremiação possui dois mascotes de grande carga mística: a Cobra Grande, que remete à lenda de Mussuncuara, e a Onça-Pintada, representando a antiga nação das onças ancestrais. Sua fundação trouxe um elemento de renovação ao Festribal, apresentando-se como uma alternativa às agremiações tradicionais e atraindo novos componentes para a celebração. A Filhos do Rio Negro foca na união das diversas etnias sob a identidade comum de "Rio-Negrinos", promovendo espetáculos que equilibram a inovação estética com o resgate dos ritmos e das narrativas tradicionais do Alto Rio Negro.
Elementos do Espetáculo (Itens Julgados) As apresentações são avaliadas por um júri técnico que observa itens como:
Evolução: Avalia a organização da tribo no espaço de apresentação, a fluidez dos movimentos e a capacidade de preencher o "Tribódromo" sem deixar espaços vazios, mantendo a harmonia do grupo. Coreografia: Conjunto de movimentos rítmicos que expressam a cultura indígena. São julgados a sincronia, a criatividade e a fidelidade aos ritos e danças tradicionais de cada etnia. Letra e Música: Avalia a composição musical (o ritmo do Festribal), a letra (que deve narrar a história ou o tema da apresentação) e a performance da banda e dos cantores. Cunhã Poranga: Representa a beleza e pureza da mulher indígena da região. A ítem é avaliada pela sua desenvoltura, indumentária e/ou conexão com o tema. Pajé (Artístico): Considerado o guardião da espiritualidade. O item avalia a performance artística do figurante na representação de ritos de cura, pajelança e a expressão teatral fundamentado através de pesquisa para garantir similaridade praticados por séculos pelos povos do Alto Rio Negro. Porta Estandarte: A figura que carrega o pavilhão (bandeira) da agremiação. Avalia-se a elegância, a firmeza e a dança da candidata enquanto ostenta o símbolo da sua nação. Rainha do Artesanato: Representa a riqueza e a diversidade do artesanato dos povos do Alto Rio Negro. O foco aqui, além da beleza e a da dança, é a exibição de adereços feitos com materiais naturais (penas, sementes, palhas, tururi, balaios, dentre muitos outros). Guerreira Indígena: Simboliza a força, a bravura e a importância da mulher indígena nas lutas e na preservação da cultura dos povos originários.
Impacto Social e Econômico O Festribal é o principal motor do turismo cultural em São Gabriel da Cachoeira, promovendo a economia local através do artesanato e da gastronomia tradicional (como a quinhapira e o caxiri).
Galeria de Campeãs
Títulos por Agremiação
Nota: Em 2024, houve um empate tríplice entre Baré, Tukano e Filhos do Rio Negro.
Referências SOUZA, Elma Nascimento de. Festribal de São Gabriel da Cachoeira-AM: Festa e Relações Interétnicas. 2019. Tese (Doutorado) – UFAM, 2019. DELGADO, Robson Chaves. Festribal: Do dabucuri nasceu seu ritmo. 2022. TCC (Jornalismo) – UFPR, 2022.