Como vai ser a Haven-1, a primeira estação espacial comercial

Cientista brasileiro mostra como será a 1ª estação espacial comercial da história; VÍDEO
Cientista brasileiro mostra como será a 1ª estação espacial comercial da história; VÍDEO · Imagem: Source: g1.globo.com

Em 2027, pela primeira vez, astronautas devem dormir, trabalhar e fazer pesquisa numa estação espacial que não pertence e não é operada por nenhum governo, batizada de Haven-1. Uma das pesquisas que deve ir à bordo é a do neurocientista brasileiro Alysson Muotri, que pretende levar minicérebros humanos à órbita para estudar o Alzheimer.

Alysson Muotri é professor da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD) e um dos mais respeitados cientistas do mundo em transtornos do desenvolvimento neurológico, principalmente o autismo. Ele vai levar ao espaço seu projeto de minicérebros, estruturas criadas em laboratório a partir de células-tronco que imitam o cérebro de um bebê em formação.

A Haven-1, da empresa Vast, será a primeira estação comercial do mundo, um projeto sem precedentes que transforma a órbita em espaço para alugar. Como num hotel, laboratórios vão poder contratar sua “estadia” para desenvolver pesquisas.

Por dentro, ela também rompe com o que se conhece: camas infláveis, paredes brancas e lisas e compartimentos reservados aos experimentos de diferentes clientes.

O pesquisador brasileiro Alysson Muotri — Foto: Arquivo pessoal/Alysson Muotri

O pesquisador chegou a ser cotado para uma viagem ao espaço em 2023, à bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), que ainda está em órbita, mas teve a ida suspensa, segundo ele por cortes de orçamento na agência espacial americana, Nasa.

No vídeo, ele mostra um protótipo da estação, que está em San Diego, na Califórnia.

“Esse daqui é o futuro laboratório espacial para crescimento dos minicérebros. A gente vai usar essa estrutura para acomodar os nossos minicérebros, envelhecê-los e trazê-los de volta para a Terra para fazer uma série de análises”, explica.

Como vai funcionar a estação

A Haven-1 vai subir no foguete Falcon 9, da SpaceX. Cerca de um mês depois de entrar em órbita, deve receber os primeiros astronautas, que chegarão na cápsula Dragon, também da SpaceX, acoplada ao módulo.

Diferentemente da ISS, construída e operada por um consórcio de países, a nova estação é um empreendimento privado e será montada por etapas. A Haven-1 é o primeiro de uma série de módulos planejados pela Vast.

Desde o início, a ideia é que a estação funcione como plataforma de pesquisa aberta a empresas. As chamadas operadoras de carga científica levam a bordo experimentos próprios ou de clientes, que ocupam compartimentos lado a lado. Depois das análises, eles voltam para a Terra.

Com isso, o módulo inicial já deve abrigar ciência e inaugurar a transição da ISS para estações operadas pela iniciativa privada.

Um interior pensado para quem mora nele

A Haven-1 também rompe com o padrão visual das estações em operação hoje. A ISS acumula estruturas tubulares metálicas, cabos e equipamentos expostos, resultado de um projeto guiado pela necessidade.

Já o módulo da Vast tem paredes lisas, linhas limpas e um layout pensado para o conforto de quem passa semanas sem gravidade.

Heaven-1 vai ter camas infláveis — Foto: Vast

A entrada é feita pela porta de acoplamento da cápsula Dragon, ao lado da área de comunicação com a equipe em terra.

As camas da tripulação ficam nas laterais, junto aos compartimentos de armazenamento. Elas podem ser infladas para manter o corpo preso durante o sono, já que, sem gravidade, nada fica parado no lugar. Para Muotri, é uma forma de dormir no espaço muito melhor do que a disponível hoje na ISS.

Barras distribuídas pelas paredes servem de apoio para os astronautas se deslocarem flutuando pelo módulo.

Estação tem design diferente de estações já lançadas — Foto: Vast

Um trecho ainda em definição vai receber equipamentos de análise para os cientistas trabalharem a bordo. Os espaços de trabalho são compactos, com pontos de apoio para o pesquisador se fixar e, como brinca Muotri, “até olhar para cima quando tiver saudades da Terra”.

Um brasileiro cotado para a missão

Muotri dirige o programa de células-tronco da UCSD e colabora em pesquisas com a Nasa. A missão que pode levá-lo à Haven-1 como cientista-astronauta ainda está sendo desenhada e não tem data.

Segundo ele, o embarque depende de quando ficarão prontos os equipamentos de análise necessários a bordo.

- Muotri será considerado o 1º cientista no espaço já que Marcos Pontes, o primeiro brasileiro, é engenheiro de formação e militar.

A Haven-1 é um projeto sem precedentes. Até hoje, todas as estações espaciais tripuladas foram construídas e operadas por governos. Nenhuma empresa privada jamais lançou e operou uma estação espacial própria, independente, que receba tripulação.

O cientista afirma acompanhar de perto o desenvolvimento da estação, inclusive os testes pré-voo, e diz não ter receio de participar de uma iniciativa sem precedentes.

“Estou confiante de que a Haven-1 será um sucesso”, afirmou.

Se o cronograma se cumprir, a órbita baixa terá em 2027 seu primeiro endereço privado. Antes mesmo de ganhar novos módulos, a Haven-1 vai testar se uma estação menor, mais confortável e compartilhada por empresas consegue sustentar a ciência que hoje depende da ISS.

Minicérebros para estudar o Alzheimer

O laboratório de Muotri vai abrigar minicérebros, nome popular dos organoides cerebrais. São estruturas cultivadas em laboratório que reproduzem o desenvolvimento e parte das funções do cérebro de um bebê.

Elas são produzidas a partir de células-tronco pluripotentes induzidas, as iPS: células adultas reprogramadas para voltar a um estágio semelhante ao embrionário, a partir do qual podem originar neurônios. Com elas, os cientistas estudam doenças neurológicas, o envelhecimento cerebral e o efeito de medicamentos.

O que são minicérebros? — Foto: Luisa Rivas e Ana Moscatelli | Arte g1

O plano é fazer os organoides crescerem, amadurecerem e envelhecerem a bordo e depois trazê-los de volta para análise. Segundo o pesquisador, o ambiente espacial acelera o envelhecimento dos minicérebros, processo que deve ser descrito num estudo a ser publicado nas próximas semanas.

Organoides cerebrais já foram ao espaço uma vez, mas sem um cientista por perto. Agora, a proposta é conduzir os experimentos dentro da estação.

A primeira leva deve mirar doenças neurodegenerativas, sobretudo o Alzheimer. Também vão para a órbita moléculas da biodiversidade amazônica selecionadas por povos originários. A hipótese é que algumas delas ajudem a tratar essas doenças ou protejam os neurônios contra danos.