O cascudo-rabo-seco-do-paraná (nome científico: Harttia gracilis) é uma espécie de peixe siluriforme da família dos loricariídeos (Locariidae), pertencente à subfamília dos loricariíneos. O nome genérico Harttia homenageia o geólogo, paleontólogo e naturalista canadense Charles Frederick Hartt (1840–1878). A espécie foi descrita por Osvaldo Takeshi Oyakawa em 1993 a partir de exemplares coletados em Fortaleza de Minas, Minas Gerais, durante uma revisão taxonômica do gênero Harttia no sudeste do Brasil. Análises filogenéticas indicam que integra um clado próximo de H. garavelloi e faz parte de um conjunto de linhagens do sudeste brasileiro que divergiram precocemente na história evolutiva do gênero. Trata-se de um cascudo de pequeno porte, alcançando até 10,1 centímetros de comprimento padrão, caracterizado pelo corpo alongado e deprimido dorsoventralmente, revestido por placas ósseas dérmicas, abdome nu e diversas particularidades osteológicas que o distinguem de outros representantes do gênero. É um endêmico do Brasil, restrito a riachos de cabeceira da sub-bacia do rio Grande, no alto sistema do rio Paraná, nos estados de Minas Gerais e São Paulo. Os registros conhecidos concentram-se em poucos cursos d'água, incluindo localidades nos municípios de Fortaleza de Minas, Passos, Campos do Jordão, São Bento do Sapucaí e Franca. Sua distribuição está associada aos biomas do Cerrado e da Mata Atlântica, em ambientes lóticos de pequeno porte situados nas porções superiores das drenagens, com extensão de ocorrência estimada em 16 359 quilômetros quadrados. Como outros loricariídeos, possui hábitos bentônicos e vive em cursos d'água de correnteza moderada a forte, com substrato rochoso e águas bem oxigenadas, utilizando raízes da vegetação ciliar como abrigo. A espécie é considerada incomum em toda a sua área de ocorrência conhecida, e sua tendência populacional permanece desconhecida. A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) a classifica como quase ameaçada (NT), enquanto avaliações regionais já a enquadraram como vulnerável (VU) no estado de São Paulo. As principais ameaças decorrem da perda e degradação de habitat, especialmente em consequência da expansão das atividades agropecuárias, da urbanização, da mineração e da poluição dos cursos d'água. A espécie é contemplada pelo Plano de Ação Nacional para a Conservação das Espécies de Peixes Ameaçadas de Extinção da Bacia do Alto Rio Paraná, e parte de sua distribuição encontra-se protegida pela Área de Proteção Ambiental Sapucaí-Mirim.

Etimologia O nome genérico Harttia homenageia o geólogo, paleontólogo e naturalista canadense Charles Frederick Hartt (1840–1878), integrante da Expedição Thayer ao Brasil e especialista na história natural e geologia do país.

Taxonomia O cascudo-rabo-seco-do-paraná é uma espécie de peixe siluriforme da família dos loricariídeos, pertencente à subfamília dos loricariíneos. Foi descrita por Osvaldo Takeshi Oyakawa em 1993, durante uma revisão taxonômica do gênero Harttia no sudeste do Brasil. Foi descrito a partir de exemplares coletados no município de Fortaleza de Minas, em Minas Gerais. Análises filogenéticas baseadas em caracteres morfológicos indicam que as espécies de Harttia não formam um conjunto homogêneo, mas diferentes linhagens que divergiram ao longo da evolução do grupo. Entre os representantes do gênero, as espécies do sudeste do Brasil ocupam posições mais basais na filogenia. Nesse contexto, Harttia gracilis integra um clado que também inclui H. garavelloi, sugerindo uma relação de parentesco mais próxima entre essas duas espécies do que com outros representantes do gênero. Os resultados também indicam que ambas pertencem a um conjunto de linhagens do sudeste brasileiro que divergiram precocemente na história evolutiva de Harttia, ao lado de espécies como H. leiopleura, H. longipinna, H. novalimensis e H. loricariformis. Filogeneticamente, compartilha diversas sinapomorfias com espécies como H. garavelloi, H. intermontana, H. kronei e H. torrenticola.

Descrição Harttia gracilis é um cascudo de pequeno porte que pode atingir até 10,1 centímetros de comprimento padrão. Apresenta corpo alongado e deprimido dorsoventralmente, revestido por placas dérmicas ósseas e com pedúnculo caudal afilado. Como outras espécies do gênero, possui quilha lateral ausente e abdome completamente desprovido de placas ósseas. O focinho é relativamente estreito, apresentando a extremidade anterior do mesetmoide em forma de ponta de flecha, condição compartilhada apenas com poucas espécies do gênero. A abertura da cavidade nasal é arredondada e o poro epifisário é relativamente grande. O pré-opérculo apresenta uma pequena área externa exposta e ornamentada, enquanto o suprapré-opérculo é reduzido. A região anterior do pterótico-supracleitro possui uma crista ventral alta e bem desenvolvida. O aparelho mandibular caracteriza-se por um dentário robusto e aproximadamente quadrangular, associado a um palatino provido de um longo processo acessório. A mandíbula superior apresenta a projeção maxilar formando ângulo superior a 90° em relação ao eixo principal do osso. Entre os elementos do aparelho branquial destacam-se um segundo basibranquial vestigial e nodular, um processo anterior conspícuo no primeiro epibranquial, processos posteriores conspícuos no primeiro e segundo epibranquiais e a presença de um processo posterior desenvolvido no quarto epibranquial. As placas dentígeras faríngeas inferiores não apresentam projeções anteriores. No neurocrânio, a espécie apresenta cartilagem na margem anterior do mesetmoide, ramo parietal do sistema de canais sensoriais terminando na junção entre os ossos frontal e esfenótico e uma crista lateral suave e incompleta na superfície do hiomandibular destinada à inserção do músculo elevador do arco palatino. A margem do hiomandibular em contato com o pterótico-supracleitro é reta. O côndilo posterior do inter-hial está ausente e o cerato-hial apresenta uma crista ventral bem desenvolvida. No esqueleto axial, a oitava costela encontra-se plenamente desenvolvida, possuindo tamanho semelhante ao das demais costelas. Os espinhos bífidos ocorrem apenas nos espinhos neurais, estando ausentes os espinhos paraneurais e para-hemais. O sulco aórtico estende-se aproximadamente entre as vértebras nove e onze. O segundo centro pré-ural possui comprimento aproximadamente igual ou ligeiramente superior ao do esqueleto caudal. As placas hipurais apresentam uma incisura profunda formando uma fenestra caudal. A espécie possui três placas supracaudais e apenas três placas na série lateral mínima. O primeiro elemento da nadadeira dorsal está presente sob a forma de uma pequena placa desarticulada.

Distribuição e habitat O cascudo-rabo-seco-do-paraná é endêmico do Brasil, onde ocorre em riachos de cabeceira da sub-bacia do rio Grande, no alto sistema do rio Paraná, nos estados de Minas Gerais e São Paulo. Em sua localidade-tipo foi registrado apenas uma vez. Além dessa localidade, há registros em outro afluente do rio São João, no município de Passos, em Minas Gerais, bem como na bacia do rio Sapucaí, em Campos do Jordão, no ribeirão do Lajeado, em São Bento do Sapucaí, e no rio Canoas, em Franca, todos no estado de São Paulo. A espécie é incomum em toda a sua área de ocorrência conhecida. Sua distribuição está associada aos biomas do Cerrado e da Mata Atlântica, ocupando ambientes lóticos de pequeno porte localizados nas porções superiores das drenagens. A extensão de ocorrência foi estimada em 16 359 quilômetros quadrados, calculada a partir do polígono convexo mínimo que engloba as microbacias com registros conhecidos da espécie. A espécie ocorre em regiões de clima tropical.

Ecologia Como outros representantes da família dos loricariídeos, o cascudo-rabo-seco-do-paraná possui hábitos bentônicos, vivendo associado ao fundo de cursos d'água de correnteza moderada a forte, geralmente com substrato rochoso e águas bem oxigenadas. A espécie utiliza micro-hábitats formados por raízes da vegetação ciliar, entre as quais permanece abrigada, comportamento que dificulta sua captura por métodos convencionais de amostragem. É considerada inofensiva aos seres humanos.

Conservação A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classifica o cascudo-rabo-seco-do-paraná como quase ameaçado (NT), com base no critério B1b(iii), em avaliação publicada em 2018. A espécie não foi avaliada pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES) nem pela Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). Em 2014, com base numa avaliação de 2009, foi classificado como vulnerável (VU) no Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção no Estado de São Paulo; e em 2018, com base numa avaliação de 2010, como quase ameaçado (NT) na Lista Vermelha do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (IMCBio). A tendência populacional do cascudo-rabo-seco-do-paraná é desconhecida. As principais ameaças à espécie decorrem da perda e degradação de seus habitats, especialmente em consequência da expansão das atividades agropecuárias, da urbanização, da mineração e da poluição dos cursos d'água. É contemplado pelo Plano de Ação Nacional para a Conservação das Espécies de Peixes Ameaçadas de Extinção da Bacia do Alto Rio Paraná, instrumento coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Parte de sua distribuição também se encontra inserida na Área de Proteção Ambiental Sapucaí-Mirim.

Notas [a] ^ O critério B1b(iii) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) é utilizado para avaliar espécies ameaçadas com base em sua pequena extensão de ocorrência (EOO) e na existência de evidências de declínio contínuo de seu habitat. O componente B1 indica que a espécie possui uma extensão de ocorrência reduzida, abaixo de determinados limiares estabelecidos pela UICN (por exemplo, inferior a 20 mil quilômetros quadrados para Vulnerável, cinco mil quilômetros quadrados para Em Perigo ou 100 quilômetros quadrados para Criticamente em Perigo). A letra b exige a demonstração de um declínio contínuo observado, inferido ou projetado, enquanto o subitem (iii) especifica que esse declínio afeta a área, extensão e/ou qualidade do habitat. Assim, uma espécie enquadrada pelo critério B1b(iii) apresenta distribuição geográfica restrita e sofre deterioração contínua dos ambientes dos quais depende, ainda que não haja necessariamente informações detalhadas sobre redução populacional direta. Para que o critério B1 seja aplicado, também é necessário que a espécie satisfaça pelo menos uma das condições complementares previstas pela UICN, como ocorrência em poucas localidades ou população severamente fragmentada (subcritério "a"), ou flutuações extremas na distribuição, população ou habitat (subcritério "c").

Referências

Ligações externas Documentos sobre Harttia gracilis na Biodiversity Heritage Library