Perder peso e, ao mesmo tempo, sentir menos fôlego para subir escadas ou carregar as compras. Essa combinação ajuda a entender uma discussão que ganhou espaço nas revistas científicas com a popularização das chamadas canetas emagrecedoras: quando o ponteiro da balança desce, o que exatamente o corpo está perdendo? A pergunta é pertinente. Esses medicamentos ajudaram a mudar o tratamento da obesidade, que hoje é reconhecida como uma doença crônica. Ao mesmo tempo, pesquisadores e sociedades de saúde vêm reforçando que o remédio funciona melhor quando faz parte de um cuidado mais amplo, no qual o movimento ocupa um lugar central.As canetas reúnem medicamentos conhecidos como agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida, além da tirzepatida, que atua também sobre um segundo hormônio, o GIP. Eles imitam hormônios produzidos pelo intestino após as refeições, aumentam a sensação de saciedade e reduzem o apetite. No Brasil, desde junho de 2025, a venda exige retenção da receita médica na farmácia.Em dezembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou sua primeira diretriz sobre o tema. O documento considera que esses medicamentos podem ser usados no tratamento de longo prazo da obesidade em adultos, exceto na gestação. Também recomenda que o uso seja acompanhado de programas estruturados de alimentação saudável e atividade física.Qualquer emagrecimento envolve perda de gordura e também de massa magra. Isso não é exclusividade dos medicamentos. Estudos com dieta isolada estimam que cerca de um quarto do peso perdido corresponda a massa muscular.Com as canetas, o padrão é parecido. Uma revisão publicada no fim de setembro na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health aponta que, na maior parte dos ensaios clínicos, aproximadamente 30% do peso perdido corresponde a massa magra. No estudo STEP 1, um dos principais com a semaglutida, os voluntários avaliados por densitometria de corpo inteiro perderam cerca de 19% da gordura e perto de 10% da massa magra em 68 semanas. Como a gordura diminuiu mais, a proporção de massa magra em relação ao peso total chegou a aumentar.Aqui cabe um cuidado na leitura dos números. “Massa magra” é tudo aquilo que não é gordura: músculos, mas também água, órgãos, ossos e tecido conjuntivo. Por isso, a perda de massa magra medida nos exames não equivale, quilo por quilo, à perda de músculo.Uma revisão recente indica que, nos estudos controlados, a força e a capacidade física não pioraram de forma consistente durante o tratamento. Ainda assim, os autores reconhecem lacunas importantes. Há poucos dados sobre grupos mais vulneráveis, como pessoas mais velhas ou que já começam o tratamento com pouca massa muscular. A pergunta, portanto, não é se o medicamento “destrói” músculos, e sim como proteger aquilo que o corpo precisa preservar.As mulheres são a maioria entre as usuárias desses medicamentos. A revisão da Lancet, liderada por pesquisadores do Reino Unido e apresentada no congresso europeu de diabetes, observa que a expansão do uso foi mais rápida do que a produção de orientações específicas para elas. Os autores alertam que a perda adicional de massa magra pode contribuir para fragilidade e limitações funcionais, especialmente em mulheres mais velhas.A explicação tem a ver com a biologia feminina ao longo da vida. Com a queda do estrogênio na transição menopausal, a perda de massa muscular e de massa óssea tende a se acelerar. Quando uma redução rápida de peso acontece nesse período, a reserva de músculo, que já costuma ser menor, merece cuidado redobrado.Músculo forte não é questão de estética. Ele sustenta as articulações, ajuda a controlar a glicose, protege contra quedas e está ligado à autonomia para tarefas simples do dia a dia, como levantar de uma cadeira ou carregar uma criança no colo.Um ensaio clínico dinamarquês publicado no New England Journal of Medicine ajudou a esclarecer essa relação. Depois de uma fase inicial de emagrecimento, adultos com obesidade foram divididos em quatro grupos por um ano: exercício, liraglutida, os dois combinados ou placebo. A combinação levou à maior redução de gordura corporal, cerca de duas vezes a observada com cada estratégia isolada. O grupo que fez exercício foi o único em que a massa magra se manteve preservada em comparação ao placebo.Na mesma direção, um documento conjunto de quatro sociedades norte-americanas de nutrição, medicina do estilo de vida e obesidade, publicado em 2025, aponta o treino de força e a ingestão adequada de proteína como prioridades para preservar músculos e ossos durante o uso desses medicamentos.Algumas estratégias que as evidências apoiam, sempre adaptadas a cada mulher:Acompanhar a força, e não só o peso: subir escadas, levantar da cadeira e carregar compras com mais facilidade são bons sinais.O uso desses medicamentos deve ocorrer com prescrição e acompanhamento médico. Produtos sem registro, de origem desconhecida ou preparados em casa podem ter dose incerta e risco de contaminação, um problema que a revisão da Lancet também destaca. A diretriz da OMS não recomenda o uso durante a gestação; quem planeja engravidar deve discutir o tema com sua equipe de saúde.Vale procurar orientação se surgirem cansaço intenso, tontura, dificuldade para comer o suficiente ou sensação de fraqueza progressiva. Fisioterapeutas e profissionais de educação física podem montar um programa de exercícios seguro e progressivo. Isso é especialmente importante para quem convive com dor, osteoporose, histórico de câncer ou linfedema. Uma avaliação simples, como medir a força de preensão da mão ou cronometrar o tempo para levantar da cadeira, ajuda a acompanhar a evolução ao longo do tratamento.As canetas emagrecedoras representam um avanço real no tratamento da obesidade. A ciência, porém, deixa um recado claro: o objetivo vai além de pesar menos. É chegar ao fim do tratamento com mais saúde, mais disposição e força para seguir em movimento. Nessa equação, o exercício não é um acessório. Ele faz parte da receita.Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação individual por profissionais de saúde.✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Canetas emagrecedoras e massa muscular: por que o exercício faz parte do tratamento
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Treino de força e ingestão adequada de proteína devem ser prioridades para preservar músculos e ossos durante o uso desses medicamentos Inteligência artificial / Gemini
Treino de força e ingestão adequada de proteína devem ser prioridades para preservar músculos e ossos durante o uso desses medicamentos Inteligência artificial / Gemini · Imagem: Treino de força e ingestão adequada de proteína devem ser prioridades para preservar músculos e ossos durante o uso desses medicamentos Inteligência artificial / Gemini
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As canetas imitam hormônios produzidos pelo intestino após as refeições, aumentam a sensação de saciedade e reduzem o apetite Inteligência artificial / Gemini
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